sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

“Só”

 Hoje no ensaio aconteceu algo que há muito não me acontecia. Eu me emocionei de verdade e raciocinei com a “cabeça” da personagem. Hoje eu me entreguei como há muito tempo não acontecia pra mim na minha profissão.

A vida, por vezes, nos faz agir de maneira tão técnica, tão certeira, nos cobrando precisão e perfeição, que esquecemos de apenas estar no momento presente e sentir. 

Tudo é sempre tão aos trancos e barrancos (não que agora não esteja sendo) que não lembramos de fazer o que apenas nós mesmos podemos fazer. Aí, acabamos por usar da experiência adquirida com as horas de voo e nos enganamos fazendo o “arroz com feijão” que não tem erro. Ficamos na superficialidade embasada pela técnica, nos enganamos achando que somos “só isso” e diminuímos nossa luz, pois assim nos enquadramos para sobreviver.

Teoricamente, na minha profissão eu “só” preciso fazer de conta que sou outra pessoa e “viver” por um determinado período de tempo um recorte dessa outra vida. Na prática, isso é o que menos é feito, pois são tantos outros fatores com os quais precisamos nos preocupar, que o essencial é deixado para depois e se der é feito.

Hoje, eu não deixei pra depois. Hoje eu vivi. Hoje eu não esqueci de lembrar do que eu sou capaz.

Hoje eu pude “só” fazer o essencial por um pequeno momento, pois eu estava sendo conduzida, dirigida, vista, cuidada.

Esses momentos são raros.

Fazia tempo que não me sentia nervosa para entrar em cena.

Amanhã eu reestreio o espetáculo O Homem Mais Inteligente da História com atualizações no meu roteiro e com nova direção do Ivan Parente.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Ano Novo

 Ano passado eu precisava escrever um texto para uma oficina de atores-autores com tema “o corpo” e nada me vinha a mente. Então fui genuína com o que estava sentindo há um tempo e escrevi. Aqui vai um trechinho: 

“Arg! Cansaço! Essa tem sido uma fala constante na minha vida: -nossa, como que to cansada. Isso até não seria uma questão, não seria um problema, mas eu percebi que eu tenho falado isso assim que eu acordo. O bruxismo diagnosticado talvez seja um indicativo do que eu devo fazer com meu corpo durante a noite, a tensão que eu devo colocar. Durante o dia, às vezes, eu também percebo que eu estou com o ombros tencionados, que eu estou armada. Mas até eu perceber, imagina quanto tempo eu fiquei com eles tensionados até de fato eu ter consciência e falar pra mim mesma: -relaxa um pouco! Chegar no trabalho gera um outro estresse, porque a expectativa que eu coloquei em mim mesma pra apresentar aquilo que eu me programei em casa, gera uma nova tensão. Afinal estamos na era do pitching de elevador. Você só tem 7 segundos para se apresentar, dizer que você é, dizer a que veio e impressionar. Tá, mas pra que impressionar? Se você não fizer isso, ninguém te vê; E quem não é visto não é lembrado! Networking, networking, networking! Eu odeio essa palavra. E não pega a porra do celular pra tentar relaxar, porque tudo o que é exemplo de produtividade “distensionada” brota na sua tela. Acho que eu convivo com essa tensão, essa dor física desde sempre. O que meu corpo quer? Talvez o meu corpo só queira relaxar. Mas eu me esqueço que a minha mente também faz parte do meu corpo.”

Não era cansaço, era esforço! Esforço pela tentativa diária de permanecer sendo aquilo. Eu não precisava descansar, eu precisava mudar. A mudança já estava dando as caras, mas até então não tinha sido percebida. A mudança depois de constatada vem como a despedida de uma dor. É como se uma ferida estivesse sendo curada. A cicatrização gera desconforto sim, mas a dor está indo embora. O ano novo de fora coincidiu com o ano novo de dentro. (Francis Helena Cozta)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Precipício

É como estar num precipício com uma parede nas costas. Quando se decide pela mudança de algo, enquanto ela não ocorre, parece que o ar vai ficando escasso e respirar se torna cada vez mais difícil. A cobrança soa como marteladas insuportáveis e persistentes. A decisão de mudar era justamente para que esse barulho ensurdecedor cessasse. Lembra que foi uma escolha? Já está decidido que se quer uma nova vida, mas enquanto ela ainda não chega, é preciso lembrar que se tem esta aqui. A antiga vida ainda está aqui, consistente e sob controle. Olhar para o precipício gera desespero, mas é preciso lembrar que existe uma porta na parede das costas, e ainda dá pra entrar por ela quantas vezes forem preciso. (Francis Helena Cozta) 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Libertação

 

É como se desfazer de uma roupa que já não serve. Não! É como trocar de pele. Não foi de uma hora para outra, e acredito que não será passageiro. Só um sabe das transformações silenciosas e vagarosas que ocorrem dentro de si. Nada a ver com crise, cansaço ou vontade de desistência. É tranquilo, calmo, pensado e refletido. Nenhuma mudança será abrupta, pois a maturidade impediria tal feito. O comprometimento segue presente, pois é algo que mais tem a ver com a personalidade do que com a função especificamente dita. É como o despertar num dia nebuloso, mas com a serenidade da consciência de que a névoa é efêmera. Não ser mais isto (não por força das circunstâncias, mas por escolha) gera a esperança de poder ser tantas outras coisas que ainda nem se sabe. É como descobrir que agora se tem asas. Aquelas antigas preocupações se vão. Nunca, absolutamente nunca se imaginou que algo assim pudesse acontecer. Libertação. As lágrimas de alegria não mais tiradas da tal paixão, nesse momento brotam por perceber que algo findou. Até parece uma despedida. E talvez seja o início de uma. Não há mais a necessidade em suprir expectativas externas ou de outrem, nem as expectativas auto impostas fazem mais sentido. Não existe mais ansiedade nem a inquietação “de conseguir” que sempre estiveram latentes e tão impertinentes. Que loucura! Mas a sanidade é quem está presente. Então se aceita que mudou. As chaves da minha própria gaiola agora estão nas minhas mãos. Certas coisas não fazem mais sentido. De certas coisas eu não gosto mais. (Francis Helena Cozta)

sábado, 3 de dezembro de 2022

O Permanente é Sufocante

Eu sempre morei na mesma casa e estudei na mesma escola.

Achava mágico quem mudava de escola, de casa, de amizade. Para mim, isso era sinônimo de coragem e me despertava curiosidade. 


Não me considerava uma criança corajosa, pelo contrário, eu era sempre a mais medrosa, ao meu ver, na época, mas quando me recordo das minhas decisões, atitudes e situações pelas quais passei, hoje percebo o quanto eu era corajosa sim.


Não era uma coragem óbvia, pois como muito bem já disse Clarisse, “eu tenho medos bobos e coragens absurdas.”


Voltando ao tema, com a maturidade, percebi que eu gosto da mudança, da mutação, da novidade, de começar de novo e de novo sempre que necessário para mim.  Sentir-me pressa é extremamente desgastante. O imposto, o rótulo, o óbvio são como uma prisão, o oposto da liberdade.


A permanente restrição de “ter de ser” (ou parecer), me sufoca. O de sempre me cansa (e cansa mesmo), desagasta. 


Eu preciso de novos livros, novos filmes, novas músicas, novos trabalhos, novas amizades, novas pessoas, novas histórias.

Eu preciso renovar meu repertório de referências, de experiências, de cores, sabores, sensações, de arte… se não minha criatividade acaba estagnando, e isso para mim é como uma morte, a morte da minha arte.


Foi desafiador entender essa personalidade e ao mesmo tempo banca-la. 


Nada parecido com rebeldia ou transgressão. Nada disso! É muito mais simples e leve do que talvez possa parecer, até porque, eu também sou entusiasta do consciente, do racional, do responsável, do prudente, do seguro.


A segurança tem papel fundamental na liberdade.


Eu gosto de escolher, mesmo que escolher seja sempre escolher o mesmo restaurante, o mesmo prato, o mesmo filme, a mesma roupa, a mesma pessoa; Mas por escolha, não por imposição.


A liberdade me fascina, e, para mim, ela está completamente alinhada com a coragem.


Eu flerto com a coragem. E por não ser a ausência do medo; A instabilidade, o impermanente, a mudança, estão completamente ligados a ela. Coragem. (Francis Helena Cozta) 

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Suportar

Alguns dias são como pequenas gotas de inspiração para suportar as mazelas da maioria dos demais. Ver fotos da vida de alguém não é o mesmo que assistir ao longa-metragem dessa vida. Para o álbum de fotos, escolhemos momentos certeiros que nos trazem as mais lindas sensações, e não os momentos de penúria. Que os doces momentos banhados pela espontaneidade quase juvenil, sejam tão intensamente vividos, para que permaneçam vivos na memória corporal e demorem a se dissolver. Só assim é possível suportar todo o resto. E o resto, é de fato resto. (Francis Helena Cozta) 



terça-feira, 11 de outubro de 2022

Dias Cinzas

Mesmo com uma certa maturidade presente, por vezes, a euforia ainda toma conta. Só se percebe isso em dias cinzas, pois são neles em ela se esvai. Talvez só se perceba certas coisas quando elas se fazem ausentes. O mais doido é notar que “baldes de água fria” podem nos fazer bem. Parece que nos trazem para o eixo que nos é tão caro. Há uma beleza em dias cinza e há uma certa tranquilidade voltar para o eixo, que só vem neles, mesmo que seja doído. Depois que a água que caiu do balde seca, instala-se um equilíbrio que só agora se entende como era necessário. A euforia pode até continuar fazendo parte, mas não em dias cinzas. E quer saber? Por mais estranho que pareça, cinza continua sendo a cor favorita. (Francis Helena Cozta)