sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Oi vida

 "Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome." Adélia Prado escreveu em julho de 1976. E cá estou eu, parafraseando-a em janeiro de 2026. O mês do avesso do avesso, da rotina um tanto quanto insalubremente divertida. O ano que começou me revirando a alma e trazendo a Alma. Palco, coxia, bar, hotel, madrugadas, música, choro e risada. E como não posso caber na estante, agora, parafraseando Clarisse, "já que sou, o jeito é ser". Oi vida, eu tô aqui! (Francis Helena Cozta)

sábado, 24 de janeiro de 2026

Aforismos de uma semana

  • Quando as figuras de origem que deveriam acolher, não sentem ou só se auto veem, se constata a decepção já sabida.
  • Amigos são as preciosidades mais deliciosas que a vida pode oferecer.
  • A arte tem o poder de unir almas.
  • Quanto maior o vocabulário, maior o mundo.
  • O contraluz de uma janela grande tem poder mágico, e as cordas de um violão também.
  • Descobrir que o que se achava que era extremamente custoso e burocrático, pode ser simples e descomplicado é libertador.
  • É motivo de orgulho, alívio e felicidade sentir que temos o melhor parceiro que poderíamos ter até nos momentos de absoluta provação.
  • A vida é dolorosa e poética em muitas instâncias. (Francis Helena Cozta)

domingo, 4 de janeiro de 2026

Carta da Prefeitura

 No dia em que eu definitivamente me desgarrei,

você surge igual uma carta registrada da prefeitura.

Daquelas que você nem abriu ainda,

mas reconhece o envelope antes mesmo de ler.


A mão fica trêmula segurando o papel

e o coração palpita,

lembrando que ele ainda está muito vivo.


Eu tenho vontade de despejar tudo em cima de você.

Eu tenho vontade de falar tudo o que eu sinto,

de te mandar a minha lista de poemas que eu escrevi pra você,

de encher de novo a nossa playlist

com todas as músicas que eu dediquei em silêncio pra você

durante todo esse ano.


Dá vontade de berrar na sua cara que eu te amo,

que você entrou dentro de mim

e eu tentei de tudo pra te arrancar daqui

e é praticamente impossível,

porque você ficou aqui.


Mas eu preciso te dar espaço.

O mais importante agora é você se curar.

O mais importante agora é você aí

e eu aqui.


E eu realmente espero

que a gente se encontre nesse meio do caminho,

os dois curados das nossas próprias almas.


Como dizia Chico,

“talvez no tempo da delicadeza”.

(Francis Helena Cozta)


2/01/26

 Há amores que não pedem licença.

Eles acontecem à revelia da geografia, do tempo, do juízo.

Acontecem porque dois se encontram num ponto sensível do mundo.

E, por ali, de alguma forma, permanecem.


Então, o amor também fica.

Fica suspenso.

No sentimento tácito.

No acordo silencioso.

No campo da poesia.


Para o poeta, escrever não é escolha, é sobrevivência.

É o modo que ele encontra de não adoecer, de não endurecer, de continuar vivo.

O poeta aprende, com atraso e cicatriz,

que poesia é oferta.

E oferta não cobra resposta.


Talvez um dia os dois se encontrem.

Um talvez sem cobrança, sem urgência, quase abstrato.

Porque o poeta também aprende

que silêncio é cuidado, e amar, também é dar espaço.


Esse amor encontra seu lugar.

E o que o sustenta não é o que está por vir,

mas o que já existe,

sem pedir chão.

(Francis Helena Cozta)


domingo, 28 de dezembro de 2025

Tô viva

Sim, teve Machado,

mas também teve Dostoievski.

Teve direção,

teve escrita,

teve teatro,

muito teatro.

Teve ballet,

teve retorno à dança,

teve retorno pra casa

e teve retorno pra quem eu sou.


Teve morte.

Teve distanciamento,

teve decepção

e teve choro.

Teve choro em posição fetal

ouvindo Vento no Litoral.


Eu cortei a franja,

pintei o cabelo,

fiz 40 anos

e gravei Bukowski na pele.


Me formei,

pós-graduada.

Fiz meu monólogo.

Quem diria,

eu estreei meu monólogo.


Eu me decepcionei muito,

mas também teve muita alegria.


E pra quem estava morta em 2024,

pra quem fazia planos, há dois anos,

pra cercear uma vida,

2025 foram 25 anos em um.


Teve muita vida,

muita vida,

e é isso que importa.

Pois, de alguma forma, os poetas estão perdoados. 

(Francis Helena Cozta)

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Atrizes e hotéis

Tem algo de mágico em quartos de hotéis.

É uma solidão estranha. Você chega cansada depois de um dia de trabalho, e aquele espaço anônimo se torna sua casa por alguns dias ou talvez apenas por algumas horas. A janela desconhecida é um portal para uma cidade que talvez nunca mais te veja.

Acordar num quarto de hotel é acordar meio perdida. Que cidade é essa? Que história que eu tô vivendo agora? Algumas cidades são tão marcantes que dá vontade de ficar. Outras são passagens, como personagens que entram e saem do palco da vida da atriz.

Atrizes e quartos de hotel têm isso em comum. Ambos são feitos de presenças passageiras. Nem os quartos e nem as atrizes aprendem a dizer adeus. Apenas deixam ir.

O inverno sempre passa, apagando cicatrizes, mesmo quando o verão decide acabar cedo demais. E talvez seja justamente nesse vai e vem de cidades, palcos e camarins que a atriz aprende que sua vida não é fixa, mas feita de memórias, de personagens e de vidas que chegam e partem, talvez para nunca mais voltar… ou talvez não. (Francis Helena Cozta)

Completamente solitário

Não existe nada mais gostoso do que se sentir seguro em cena.

Nada se compara a sensação de olhar no olho do parceiro de cena e mergulhar nele sem medo, porque aqui dentro eu sei o que eu estou fazendo, ou seja, eu tenho total controle sobre o que sai da minha boca, sobre os movimentos do meu corpo e o que vem a seguir na cena.

Essa sensação só é alcançada quando temos total domínio da fala, da música, da coreografia.

Para ter esse domínio, existe um trabalho pregresso que é COMPLETAMENTE SOLITÁRIO.

E para mim, ESSE é o verdadeiro trabalho do artista.

É preciso mto além de “decorar” o texto, as músicas, as coreografias… É preciso se apropriar delas. Para isso é preciso horas de solidão e de auto confronto.

Ler o texto em voz alta até ele sair sem eu precisar pensar nele. Lavar a louça falando o texto, tomar banho falando o texto, fazer qualquer coisa rotineira falando o texto, até ele ser “tão meu” que eu já nem penso mais nele. 

E aí, por não pensar nele, eu consigo olhar pro meu colega de cena e me entregar. 

E não há nada que se compare a essa sensação. 

Falar, falar, falar o texto em voz alta. Escutar, escutar, escutar, cantar, cantar e cantar a música até não aguentar mais. Assistir o vídeo da coreografia e errar, errar, errar até acertar. 

O trabalho do artista é anônimo, repetitivo, solitário e silencioso. E só não é invisível porque podemos expor todo esse esforço de maneira “tão natural” no palco. 

(Francis Helena Cozta)