Hoje eu vim pro lado de cá. É que a minha profissão tem dessas coisas, e o meu trabalho faz isso comigo. Ele me obriga, muitas vezes, a revisitar lugares bem íntimos. Digo físicos, mas também internos, aqui de dentro. Hoje eu vim pro lado de cá. Me doeu tanto. Confesso que enquanto eu escrevo isso, estou segurando o choro porque que estou no meio da rua. Hoje eu vim pro lado de cá e eu me lembrei de uma outra versão minha. A versão que tinha uma casa com cara de casa, e não uma casa com cara de quarto de hotel, mesmo eu amando quartos de hotel. Hoje eu vim pro lado de cá e me lembrei que a gente pode ser muitas coisas. Quem eu era do lado de cá, talvez fosse mais ingênua naquela época. Ou talvez só fosse uma versão diferente de mim mesma. Eu vim pro lado de cá e doeu. Mas ter permanecido do lado de cá e não ter conhecido o lado de lá, talvez fosse ainda mais dolorido. Não sei dizer. Eu preciso me lembrar que a saudade é o azar de quem teve muita sorte. Hoje eu vim pro lado de cá e talvez eu só me lembre de coisas daqui pelo fato de estar aqui. Quando a gente parte do lado de cá, quando a gente vai pro lado de lá, muita coisa muda. Muita coisa tem mudado. Personagens de temporadas muito antigas têm me revisitado. Personagens novos da versão que eu sou do lado de lá se fazem presentes todos os dias. Hoje eu vim pro lado de cá e me lembrei de quem eu sou desse lado aqui. Eu realmente não sei muito bem o que fazer com isso. Talvez não há nada que se possa fazer agora. Partindo da premissa que a gente muda, o lado onde estamos é apenas um reflexo de quem somos por dentro, e vice-versa. Estar do lado cá é triste, mas bonito, é poético e sofrido. Hoje eu vim pro lado de cá, mas daqui a pouco eu já estou voltando pro lado de lá e deixo aqui minha outra versão, a daqui. Hoje mesmo eu já volto pro lado de lá. (Francis Helena Cozta)
Transparente
Crônicas por Francis Helena Cozta
quarta-feira, 6 de maio de 2026
sexta-feira, 6 de março de 2026
Meu sofá
Faz mais de um mês que eu comprei um sofá.
Fiz as contas certinhas para que ele chegasse na data ideal.
Ele estava programado para chegar num determinado dia, então, fiquei no aguardo o dia todo. Eu precisava estar lá para recebê-lo, pois é um objeto bem grande, que ocupa espaço, e o prédio não teria onde armazenar. Vivi esse dia apenas para esperar a chegada do sofá. Ele poderia chegar a qualquer momento. Tomar banho tinha que ser rápido, pois o interfone poderia tocar. Qualquer tarefa diária era feita pensando na chegada do sofá. Não via a hora de me aconchegar nele. Será que eu tinha escolhido o tamanho certo? Só quando ele chegasse eu saberia se combinou com a casa. O sofá talvez seja meu lugar favorito de uma casa, e agora, eu teria um novinho só pra mim.
Aguardei ansiosamente o dia todo, e…
O sofá não chegou. A entrega está atrasada.
Ele está “em rota” há um tempo já.
Não há previsão de chegada.
Eu pergunto para o local onde comprei e eles dizem que a transportadora que atrasou.
O tempo todo eu entro no aplicativo para ver onde o meu sofá está, qual a sua localização e se existe alguma previsão de chegada. Vai que ele chega e eu não estou lá pra receber.
A ansiedade está presente o tempo todo.
Fico com receio de terem esquecido dele em algum lugar, ou terem mandado por engano para outra pessoa em outra cidade. Tantas coisas passam na minha cabeça, até se a culpa é minha por ter escolhido o fornecedor errado. To com tanto medo que ele não chegue.
“Ah, mas é só um sofá!”
Você não faz ideia do quanto eu preciso de um sofá, desse sofá, o meu sofá, mas ele não chega. Só avisam que ele está a caminho, que um dia chegará, mas quando?
Enquanto isso, eu olho pra minha sala vazia.
Ela está fria, sem ter onde sentar.
E eu? Continuo esperando ansiosamente.
Esse texto não é apenas sobre sofás.
(Francis Helena Cozta)
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Linguagem do amor
Entre amar e ser amada, jamais hesitei em escolher a primeira opção. Mas, às vezes, o cansaço toma conta de um corpo exigente por uma certa linguagem do amor que requer presença. Quanta confusão ocorre cá dentro. E mesmo flertando com o que talvez eu jamais possa ter, pois a busca sempre me parece fascinante, hoje (talvez só por hoje) eu estou cansada. (Francis Helena Cozta)
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
1 ano
Hoje faz um ano que te conheci.
Sabe-se lá porque eu gravei em mim a data, seu rosto, sua voz, seu jeitinho, sua boca na minha.
Sabe-se lá porque não foi só mais um encontro casual de duas pessoas que fariam mais um trabalho juntas, e só passariam uma pela outra.
Algo de você ficou em mim.
Algo de você reverbera no meu corpo e me permite ser cafona a cada ideia e frase que escrevo pra ti.
Sabe-se lá o porquê de você não sair daqui de dentro de mim.
A maior dor que já senti, foi proveniente da sua ausência.
Os pensamentos mais lindos que tenho são todos para você.
Eu realmente não sei o que você fez comigo, mas você fez, xuxu.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Diferente
É príncipe, bem que você disse que chegaria o momento da minha crônica sobre nós…
Hoje o nosso 04/02 está diferente de todos os que já passamos.
Enquanto escrevo, as lágrimas gritam aqui.
Quantas vidas cabem numa vida?
Na nossa, foram muitas. Muitas!!!
Quem éramos, por quantos fomos nos transformando, quem somos hoje?
Do que tenho certeza, é de que fomos só amor! Amor por absolutamente cada momento, cada decisão legal ou dificil que tivemos que tomar ao longo desses 16 anos. Todas as minhas transformações para o bem vieram através do nosso companheirismo. Foi você que me levantou todas as vezes que eu caí, foi você que me lembrou quem eu sou todas as vezes que eu me esqueci. Você me fez ser melhor e eu jamais esquecerei disso. Eu escolhi o melhor parceiro de vida que eu poderia ter. E até em momentos de extrema adversidade (como agora), você me mostra que eu estava certa em ser você!
Meu amor suave e natural, você jamais se livrará de mim, pois o que ocorre aqui vai além de qualquer rótulo ou papel assinado. Moreno que me convidou para dançar um xote, Jorge Versilo sempre será para você… “É incrível, nada desvia o destino, hoje tudo faz sentido e ainda há tanto a aprender…” as nossas coisinhas serão “as nossas coisinhas” para sempre! Os papais da Melody para sempre! Eu te amo e te amarei para sempre! Tudo, absolutamente tudo valeu a pena!!! Seja feliz, meu amor!!! (Francis Helena Cozta)
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Oi vida
"Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome." Adélia Prado escreveu em julho de 1976. E cá estou eu, parafraseando-a em janeiro de 2026. O mês do avesso do avesso, da rotina um tanto quanto insalubremente divertida. O ano que começou me revirando a alma e trazendo a Alma. Palco, coxia, bar, hotel, madrugadas, música, choro e risada. E como não posso caber na estante, agora, parafraseando Clarisse, "já que sou, o jeito é ser". Oi vida, eu tô aqui! (Francis Helena Cozta)
sábado, 24 de janeiro de 2026
Aforismos de uma semana
- Quando as figuras de origem que deveriam acolher, não sentem ou só se auto veem, se constata a decepção já sabida.
- Amigos são as preciosidades mais deliciosas que a vida pode oferecer.
- A arte tem o poder de unir almas.
- Quanto maior o vocabulário, maior o mundo.
- O contraluz de uma janela grande tem poder mágico, e as cordas de um violão também.
- Descobrir que o que se achava que era extremamente custoso e burocrático, pode ser simples e descomplicado é libertador.
- É motivo de orgulho, alívio e felicidade sentir que temos o melhor parceiro que poderíamos ter até nos momentos de absoluta provação.
- A vida é dolorosa e poética em muitas instâncias. (Francis Helena Cozta)