Hoje eu vim pro lado de cá. É que a minha profissão tem dessas coisas, e o meu trabalho faz isso comigo. Ele me obriga, muitas vezes, a revisitar lugares bem íntimos. Digo físicos, mas também internos, aqui de dentro. Hoje eu vim pro lado de cá. Me doeu tanto. Confesso que enquanto eu escrevo isso, estou segurando o choro porque que estou no meio da rua. Hoje eu vim pro lado de cá e eu me lembrei de uma outra versão minha. A versão que tinha uma casa com cara de casa, e não uma casa com cara de quarto de hotel, mesmo eu amando quartos de hotel. Hoje eu vim pro lado de cá e me lembrei que a gente pode ser muitas coisas. Quem eu era do lado de cá, talvez fosse mais ingênua naquela época. Ou talvez só fosse uma versão diferente de mim mesma. Eu vim pro lado de cá e doeu. Mas ter permanecido do lado de cá e não ter conhecido o lado de lá, talvez fosse ainda mais dolorido. Não sei dizer. Eu preciso me lembrar que a saudade é o azar de quem teve muita sorte. Hoje eu vim pro lado de cá e talvez eu só me lembre de coisas daqui pelo fato de estar aqui. Quando a gente parte do lado de cá, quando a gente vai pro lado de lá, muita coisa muda. Muita coisa tem mudado. Personagens de temporadas muito antigas têm me revisitado. Personagens novos da versão que eu sou do lado de lá se fazem presentes todos os dias. Hoje eu vim pro lado de cá e me lembrei de quem eu sou desse lado aqui. Eu realmente não sei muito bem o que fazer com isso. Talvez não há nada que se possa fazer agora. Partindo da premissa que a gente muda, o lado onde estamos é apenas um reflexo de quem somos por dentro, e vice-versa. Estar do lado cá é triste, mas bonito, é poético e sofrido. Hoje eu vim pro lado de cá, mas daqui a pouco eu já estou voltando pro lado de lá e deixo aqui minha outra versão, a daqui. Hoje mesmo eu já volto pro lado de lá. (Francis Helena Cozta)
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