Me lembrei de uma peça que fazia anos atrás onde tinha uma bonita movimentação do cenário feita pelo elenco em cena. Eram como blocos muito grandes, pesados e difíceis de carregar. Deles, saía um pó que ia sujando muito o palco ao longo da peça. A cada movimentação, a poeira aumentava. Lembro de fazer a peça com chiclete no canto da boca para me “hidratar” de alguma maneira, e tomava água e fazia inalação até o último instante de entrar em cena, pois sou bem alérgica e morria de medo de perder a voz. Ficamos em cartaz num teatro tradicional (que não existe mais) no centro de São Paulo. Os blocos eram tão grandes que tinham de ser retirados pelo saguão até o estacionamento, pois não cabiam na coxia. Após o espetáculo, os mais fortes carregavam os blocos, enquanto o restante (elenco e técnica) esfregavam o chão do palco. Era poeira grudada que não acabava mais. Ironicamente eu fazia um famosa campanha publicitária de produto de limpeza na tv. Usávamos esse, dentre outros produtos para esfregar o placo até sair todo o pó. Tínhamos que entregar o palco após a peça como o encontramos. A administração do teatro exigia isso da nossa produção. Nos limpávamos na medida do possível, passávamos perfume e íamos receber o público no saguão do teatro. A espera um tanto longa gerava o questionamento sobre a demora dos atores para receber a plateia. Mal sabiam eles que estávamos agachados esfregando as tábuas das quais havíamos pisado para fazer o espetáculo do qual eles tinham acabado de aplaudir. O aprendizado da vida muitas vezes vem através de rituais “sagrados” como esse: o de esfregar o próprio local de trabalho antes de “ser recebida pelo público”. (Francis Helena Cozta)
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