domingo, 4 de janeiro de 2026

2/01/26

 Há amores que não pedem licença.

Eles acontecem à revelia da geografia, do tempo, do juízo.

Acontecem porque dois se encontram num ponto sensível do mundo.

E, por ali, de alguma forma, permanecem.


Então, o amor também fica.

Fica suspenso.

No sentimento tácito.

No acordo silencioso.

No campo da poesia.


Para o poeta, escrever não é escolha, é sobrevivência.

É o modo que ele encontra de não adoecer, de não endurecer, de continuar vivo.

O poeta aprende, com atraso e cicatriz,

que poesia é oferta.

E oferta não cobra resposta.


Talvez um dia os dois se encontrem.

Um talvez sem cobrança, sem urgência, quase abstrato.

Porque o poeta também aprende

que silêncio é cuidado, e amar, também é dar espaço.


Esse amor encontra seu lugar.

E o que o sustenta não é o que está por vir,

mas o que já existe,

sem pedir chão.

(Francis Helena Cozta)


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